Valor que não cabe no preço

Fui uma adolescente chata e meio esquizofrênica que gostava de conversar (e aprender) sobre economia. Não tinha ideia do que era inflação nem de como funcionava o mercado de ações, mas sabia que ela influenciava o preço do chocolate. Isso bastava.

Mais tarde, descobriria que qualquer decisão que tomasse na vida teria bases econômicas. Aquele vestido maravilhoso, por exemplo, equivale a quase 36 garrafas de cerveja no boteco da esquina.

Sendo mais sensata, poderia avaliar que trabalhar de ressaca nem sempre compensa o fato de alguns bares oferecerem chopp mais barato na terça-feira. Ou ainda que perder uma saída com os amigos nem sempre compensa pra acordar disposta.

Escolher uma coisa e não outra se chama custo de oportunidade. Significa o que deixamos de ganhar ao optar por x no lugar de y.

Aliás, economia é sobre isso: escolhas.

A forma como investimos nosso dinheiro ajuda a moldar as forças sociais. Se gastamos num carro de luxo ou se doamos aos Médicos Sem Fronteiras, isso reflete nossas prioridades. Temos a opção de decidir, o tempo inteiro, o que merece nossa atenção e nossos recursos. As escolhas que fazemos refletem nossa identidade. E dizem, nas entrelinhas, em que mundo queremos viver.

Que projeto de mundo estamos financiando?


O preço implícito das coisas

Raj Patel defende que um cheeseburguer custaria $200 se fossem considerados os custos ambientais e de saúde.  

A conta vai chegar. A conta chega todo dia. A gente prefere não ver, mas nosso estilo de vida anda custando caro.

Oscar Wilde disse: “hoje sabem o preço de tudo e o valor de nada”. Patel se apropriou da ideia no livro “O valor de nada”. Ele defende que nossa fé nos preços como forma de medir valor não faz o menor sentido. Precisamos entender o que está implícito: o custo que não aparece no leitor de código de barras.

 

A diferença nem sempre óbvia entre preço e valor

Preço é uma medida unidimensional. Custa TANTO.

Valor, por outro lado, é multidimensional. É um aspecto relacional: se define sempre em relação ao contexto e ao observador. Sua percepção depende das circunstâncias, das suas vivências, dos seus princípios, etc.

O problema é a gente achar que valor tá impresso na etiqueta.

Pense rápido: quanto custa uma garrafa de água?

No Rio de Janeiro, normalmente entre R$ 1 e R$ 3, dependendo do lugar.

Agora vai que, sei lá, você tá no deserto, se arrastando sem forças e suando feito um porco? Se alguém te cobra R$ 50, não parece nada absurdo. A situação extrema faz aumentar o valor percebido da maldita garrafinha.

Mas qual o valor percebido daquilo que não podemos comprar?

 

O que, afinal, é nosso dinheiro?

Alexandre Versignassi, jornalista de ciência e economia, define assim:

“Dinheiro é um mecanismo engenhoso: permite que uma manicure compre seis pãezinhos sem ter que fazer as unhas do padeiro”.

Essas trocas, que acontecem a todo momento, movimentam nossas vidas. A economia registra os nossos quereres. Não à toa existe o marketing: para induzir desejos.

Dinheiro é uma energia. Que ainda não aprendemos a usar muito bem. Culpa do nosso cérebro primata.

Laurie Santos mostra, com seus experimentos econômicos numa sociedade de macacos, que tanto eles quanto nós nos comportamos da mesma forma irracional em relação ao dinheiro.


Dinheiro pode ser poesia?

Picasso disse: "Eu faço dinheiro".
Como?
"Me dá uma nota de um dólar", respondeu.
Ele, então, autografou e disse: "Agora ela vale dez”. 

O diálogo foi contado por Alejandro Jodorowsky, cineasta chileno, filho de imigrantes ucranianos. Na busca de financiamento pros seus filmes, ele resolveu dar dinheiro poético em troca de cada dólar arrecadado. Jodorowsky mostra, na prática, como a arte cria valor:

“Aprenda a dar, porque dar é se doar, e não dar é se eximir. Vamos fazer alguma coisa coletiva. As pessoas pagam cinco dólares em um maço de cigarros, mas, quando peço dois dólares para fazer um filme, reclamam. As pessoas não conseguem dar. Conseguem comprar. As pessoas acham que o dinheiro é para comprar. O dinheiro também é para se dar. É preciso aprender a dar.  

Então, criei o dinheiro poético. Se você me der US$ 20, eu te dou uma nota de US$ 20 inventada por mim. Dinheiro poético. Mas, se meu filme for brilhante, esses US$ 20 falsos que te dei valerão US$ 2 mil, porque serão uma obra de arte que entrará para a cultura.”

E o Catete 92 nisso tudo?

Se não queremos que o mercado coloque uma etiqueta em tudo nas nossas vidas, precisamos descobrir como pessoas - e não empresas ou governos - podem desempenhar um papel importante na distribuição dos recursos.

O Catete 92 é um experimento sobre autonomia e confiança. Acreditamos que acesso é mais interessante que posse, e que distribuir é melhor que centralizar. Por isso, criamos um espaço aberto a tudo o que for humano. Onde podemos redefinir nossas relações e ser quem a gente quiser.

Contribuição Subjetiva

Pague-quanto-quiser é um sistema baseado na co-responsabilidade. Assim como toda dinâmica da casa, o aspecto financeiro depende de quem se interessa por ela. Isso tem algumas consequências:

Voltando ao "economês", o Catete92 só existe se for validado a cada mês. Se as pessoas que participam do espaço direcionarem seus recursos e sua atenção. Ou seja: se as pessoas quiserem que ela exista. Por que deveria ser diferente?

O projeto constrói uma relação de participação e interdependência, subvertendo as tradicionais relações de consumo e prestação de serviços, que têm preços definidos. Tomar uma decisão consciente sobre o quanto contribuir, e o próprio ato de contribuir em si, se torna um gesto simbólico, baseado em uma escolha autônoma.

Assim também aumenta a variedade de contribuições possíveis: não só em valores, mas quanto aos meios (moedas). Sim, você pode pagar pelo "uso" do espaço com dinheiro. Mas também pode lavar uma louça para contribuir pelo café que tomou. Ou levar um bolo para agregar ao coffebreak. Você também pode assinar uma contribuição Recorrente só porque quer que um lugar como esse exista, mesmo sem nunca ter ido lá.

Esse sistema parte do princípio da diversidade. Como diz nosso amigo Ronny: "A riqueza da vida está na diferença, na infinitude de novos mundos, na complexidade única de cada pessoa. Somos diferentes. Nossas escolhas, desejos, histórias, aprendizados, amigos, família. Nossa situação financeira, claro, não seria igual."

Ninguém sabe melhor do que você qual é o tamanho da sua abundância e qual valor você vê no Catete 92.  E então, como quer contribuir? 

TED Global at Catete92 (english)

Emmanuelle Roques visited us during the TED Global Rio. By the occasion of the event in the city, we were invited along with many Educational and Collaborative Spaces to host live screenings of the talks. 

This post is an excerpt from the text TEDGlobal para todos = a good reason to explore the collaborative Rio (and go to the beach !) originally published in October 2014. 

*Trecho do texto da Emmanuelle Roques sobre sua passagem pelo circuito de casas colaborativas no Rio durante o evento TED Global no Rio, que aconteceu na praia de Copacabana em Outubro 2014. Fomos convidados para transmitir ao vivo as palestras e propor uma progamação paralela de eventos, elaborados de forma colaborativa por algumas casas cariocas. Infelizmente o texto só está disponível em inglês e francês.


It was lunch time, session 2 was only starting at the beginning of the afternoon, so I found a good place to eat.

and Paulo went back to his studies

I was back in time for session 2 at Catete 92,
a « house of free creation and learning »

This session was presenting the marvelous Alessandra Orofino for the project Meu Rio)

Together with the live of TEDGlobal, our hosts Luisa & Felipe organized a very interesting graphic facilitation (facilitaçao gráfica) workshop and we practiced right away
on the talks

Sharing, participation, creativity, generosity, cat to pet and pop corn « all you can eat »…. all the right conditions are gathered at Catete 92 to create an wonderful experience of collaboration, based on trust and experiment

Charges are payed by a participation fixed by each person freely, either for regular use or once in a while for conferences, work-shops, animations… For example, Laura works there everyday and throws into the participation bucket 300 to 500 reales
(125 to 200$) every month

A board in the entrance of the house tells the level of funds reached day after day.

Long life to Catete92
and to Zé the house cat !

Visita da NOO

Melina França, Jornalista da NOO passou por aqui e deixou de presente esse relato do que vivenciou na casa e algumas das figuras que conheceu por lá. 

"Aprendi isto, pelo menos, com a minha experiência: que se alguém avança com confiança na direção dos seus sonhos e se lança a viver a vida que imaginou para si, este alguém irá encontrar um sucesso inesperado nas horas comuns. Ele deixará algumas coisas para trás, passará um limite invisível; novas, universais e mais liberais leis irão estabelecer-se em volta e dentro dele, ou as leis antigas serão expandidas, e interpretadas em seu favor de uma forma mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres. Na mesma proporção, à medida em que simplifica sua vida, as leis do universo vão parecer menos complexas, a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem fraqueza fraqueza. Se você construiu castelos no ar, seu trabalho não precisa ser perdido; lá é onde ele deve estar. Agora coloque as fundações embaixo dele.
(H.D.Thoreau)

É só uma casa. Dois andares de tijolos cimentados cobertos com tinta amarela. Porta alta pintada de marrom. Escadinha na entrada. Entre os janelões da fachada, uma espécie de vitral. Fica ali na Rua do Catete, número 92. A terceira casa numa vila bonitinha. E um nome que se resume ao endereço. Sala, cozinha, salão de inverno. Quatro quartos, sendo uma suíte. Mas a arquitetura não dá nome. Cada cômodo é ressignificado, dia a dia. Chill out. Sala de reuniões. Ateliê. Ilha. O Catete92 é uma alucinação coletiva. Gente sonhando junto. E colocando as mãos na massa. Castelo e alicerces de Thoureau."

E essa não foi a primeira vez que escreveram sobre o Catete92. A Olívia Nachle publicou Que abundância meu irmão também na Noo no ano passado. Engraçado comparar os dois diferentes momentos da história da casa, já que a Olívia veio logo no início. Tem também o inesquecível texto ~irônico~ da Luiza Miguez para a revista Piauí 95:
O tudo e o nada

Catete92-Pablo-opção-2.jpg

Catete92 em intercâmbio com o Reino Unido

Esse primeiro post é um post muito feliz: está aqui para celebrar nossa participação no programa de intercâmbio 3x3 Creative Hubs.

O chamado veio do British Council, instituição de fomento à cultura e arte no Reino Unido, como parte do TRANSFORM, um programa de artes e criatividade que tem como objetivo desenvolver o diálogo artístico entre o Reino Unido e o Brasil entre 2012 e 2016. 

O 3x3 Creative Hubs selecionou 3 Espaços Criativos no Brasil para trocarem experiências e ideias com outros 3 Espaços do Reino Unido. O resultado ficou assim:  

Catete92 (representado por mim, Luisa Fosco)
com o CCA - Center for Contemporary Arts (Glasgow - Escócia)

Olabi (representado por Gabi Augustini)
com o Chapter (Cardiff - País de Gales) 

C.E.S.A.R (representado pela Ana Paula Gaspar) 
com a Makerversity (Londres - Inglaterra) 

Aproveito para contar um pouquinho que já sei sobre o CCA - Center for Contemporary Arts: 
Eles são um centro de arte independente, que existe desde 1992 e tem uma super estrutura, e muitas programações culturais de diversas naturezas... apesar do foco em Artes Visuais, um pouco de tudo acontece aqui: música, cinema, performance, design, literatura, quadrinhos... 

Além do CCA, a ideia é visitar outras instituições e conversar bastante sobre gestão de espaços e redes criativas, novas formas de colaboração, fomento à inovação, tendências em arte e tecnologia, economia criativa, movimento maker e muitas outros assuntos legais. E, claro, levar na mala de volta todas essas referências e inspirações.  

No próximo post compartilho as primeiras impressões dessa aventura :)

esse texto foi escrito com <3 por Luisa Fosco
Glasgow, 24 de Março de 2015